Espetáculos

Espetáculo Dança, Brasil! – 2003

Normalmente, os grupos artísticos que se dispõem a trabalhar com esta temática acabam por não explorar a imensa riqueza cultural existente em todo o país e, em muitos casos, principalmente no que se refere aos grupos folclóricos, acabam se tornando regionais. Diante das mais distintas possibilidades, o trabalho do Grupo Sarandeiros busca preencher esta lacuna nas artes cênicas brasileiras. No espetáculo que o Grupo apresentou em 2002, “Dança, Brasil”, algumas das principais festas e danças existentes em todo o país são apresentadas, através da apresentação de diversos quadros que espelham os ciclos festivos nacionais, entre os quais se destacam as festas carnavalescas, os festejos Juninos, as manifestações em homenagem ao Boi e os folguedos Natalinos. O Espetáculo “Dança, Brasil”, foi inspirado no livro homônimo do Diretor do Sarandeiros, Gustavo Côrtes lançado pela Editora Leitura em 2000. As danças apresentadas no espetáculo se inspiraram nas grandes festas nacionais presentes nos seguintes ciclos temáticos brasileiros: Ciclo carnavalesco: Afoxé, Frevo, Maracatu; Ciclo Junino: Carimbó,Lundu, Xaxado, Danças Gaúchas; Ciclo Natalino: Guerreiros, Retumbão, Auto do boi: presente nos outros ciclos: Bumba meu boi, Boi Bumbá.

 CICLO NATALINO

Guerreiros

O ciclo natalino corresponde ao período de 24 de dezembro a 6 de janeiro, quando ocorrem festas em todo o Brasil, comemorando o nascimento de Jesus Cristo. São uma constante neste período a presença dos autos, peças teatrais de caráter moralizador e que tiveram origem na Idade Média. Entre as principais características destas encenações, destacam-se personagens que representam idéias abstratas como o amor, esperança, liberdade, representações de santos e anjos e, por vezes, elementos cômicos. A linguagem simples e o  enredo fácil de ser compreendido fizeram destes teatros uma importante forma de catequização dos índios brasileiros pelos padres jesuítas portugueses. O surgimento dos autos natalinos é atribuído a São Francisco de Assis, que teria realizado a primeira apresentação viva de um presépio em 1223, com a inclusão de personagens bíblicos. Em Dança, Brasil!, O Sarandeiros se inspiram nas histórias natalinas e nos movimentos dos brincantes dos Guerreiros em Alagoas e na Dança do Retumbão, realizada pelos católicos após a procissão de São Benedito, celebrada no dia 25 de Dezembro em Bragança Paraense, no Pará.

CICLO CARNAVALESCO

São tantas as variações da festa carnavalesca brasileira, que não seria exagero falar de vários carnavais no país. Registros pagãos desta festa são observados nas celebrações ao deus Baco ou Dionísio, consagradas à fertilidade e ao vinho nos chamados bacanais da Grécia e da Roma antigas. Com o passar dos tempos, a tradição passou a ser celebrada de diversas formas pelos países europeus. No Brasil, advinda das festas portuguesas, marca uma comemoração que teve sua origem ligada aos entrudos (do latim intróito, entrada), cuja regra era a desordem, a bagunça e o barulho. Era comum nestas festas molhar, sujar e bater nos participantes com bisnagas d’água, baldes seringas e outros. O riso e a alegria eram o clímax diante da expressão de susto dos atingidos. A palavra carnaval parece estar relacionada ao latim carnelevamen, transformado em carne vale, que quer dizer adeus carne. Era, pois, o manifesto de alegria pelo fato das pessoas poderem comer carne até a quarta-feira de cinzas. Durante a quaresma, período imediatamente posterior ao carnaval, era proibido pela igreja o seu consumo, para pagamento de penitência dos cristãos. O carnaval europeu trazido pelos portugueses ao Brasil apresentou entrelaçamento com elementos oriundos dos negros escravos africanos que acabaram por dotar o festejo de seu aspecto único e diferenciado no mundo, sinônimo de alegria e pujança. O batuque negro envolveu a celebração de ritmo e dança, destacando-se o samba, presente em quase todos os estados, e o frevo, particular manifestação do estado de Pernambuco. A igreja, que chegou a proibir o festejo no passado, acabou por institucionalizá-lo, dando-lhe data e período específico de manifestação. Em Dança, Brasil, o Grupo Sarandeiros homenageiam as comemorações baseada nos Afoxés, que exaltam a figura dos orixás especialmente na Bahia, e, os Frevos, e Maracatus em Pernambuco, que contagiam as ruas e praças das cidades de Recife e Olinda hás mais de 200 anos.

CICLO JUNINO

No mês de junho, comemoram-se os festejos em homenagem a três santos. São as chamadas festas juninas, que têm início no dia 13 de junho, Dia de Santo Antônio. Este santo português teria vivido em 1195 e fez parte da ordem dos franciscanos, falecendo em Pádua, na Itália, com 36 anos. Bastante reverenciado no Brasil no início do século XX, chegou a ser condecorado patrono do exército brasileiro. No imaginário popular, Santo Antônio também é usado para ajudar na busca de coisas perdidas e também para arranjar casamentos.

Dia 24 de junho é Dia de São João, o ápice das festas juninas. As fogueiras, símbolo máximo da comemoração, estão relacionadas às tradicionais festas pagãs existentes na Europa antes da chegada do cristianismo, realizadas em homenagem aos deuses da fertilidade, em que se comemoravam as boas colheitas e o fim do inverno. Com a ascensão do catolicismo, a igreja tentou acabar com as festas profanas, mas não tendo sucesso, associou-as aos santos existentes no período. A adoração a São João era tradicional na península Ibérica e foi, portanto, trazida ao Brasil pelos jesuítas. Ao contrário da imagem descrita pela Bíblia, de um homem ríspido e severo, tem-se nas festas a sua imagem associada a uma criança meiga e alegre, que adora foguetes e barulho. São Pedro é o último a ser comemorado, no dia 29 de junho. Um dos maiores festejos do Brasil dedicados ao santo ocorre na cidade de Teresina, no Piauí, cuja festa termina com procissão fluvial pelo rio Parnaíba. É conhecido como santo chaveiro, pois a ele foram confiadas as chaves do Reino dos Céus. Foi um dos apóstolos de Cristo, nomeado posteriormente como o primeiro papa da Igreja Católica. É o padroeiro dos pescadores, que realizam procissões marítimas em sua homenagem, e também o protetor das viúvas. Popularmente sua imagem é associada a um velho barbudo e alegre, que espera por todos na porta do céu.

AUTO DO BOI

Bumba meu boi

A origem da festa do boi no Brasil, embora desconhecida, parece estar relacionada com as Tourinhas, festas da região do Minho em Portugal, conhecidas desde o século XII, onde as novilhas eram soltas nas ruas e os jovens corriam a sua frente. Esta tradição ainda permanece na região e em algumas cidades da Espanha. Não havia, entretanto, enredo, canto ou dança. Outra versão afirma que a festa veio do antigo Egito, onde existiam diversas comemorações ao Deus Ápis da fertilidade, cuja figura era representada por um boi que descia o rio Nilo e era seguido em procissão. Durante a comemoração, que também existia em várias partes da África, acontecia a morte e a ressurreição do deus. Acredita-se assim que os negros africanos que vieram escravizados para o Brasil trouxeram a adoração ao boi. Os jesuítas também contribuíram para a sua divulgação através da catequização dos povos indígenas, com a realização de pequenas apresentações de enredo acessível, em que o bem invariavelmente vencia o mal. Mas a festa que se tem no Brasil é única. O boi é um personagem presente em diversas notações no processo de colonização, por constituir importante fonte de renda, sendo dessa forma um ponto comum de interesse. Conseqüentemente surgiram lendas, narrativas e cultos em torno da figura do boi, marcando sua passagem para o universo folclórico brasileiro, onde a dramatização, as cores, as danças, as músicas e os personagens variam, com o tempo e o espaço, demonstrando grandes particularidades nos estados em que acontecem. O auto fazia parte do ciclo natalino, mas tem sido largamente difundido no ciclo junino e no carnaval, daí a necessidade atual de enquadrá-lo como um auto independente. O enredo é o mesmo em quase todo o país. Nele, a negra Catirina, grávida, tem o desejo de comer a língua do boi mais bonito da fazenda e seu esposo Francisco, empregado do local, mata o animal para satisfazer a mulher e foge. Segue-se uma encenação, com a prisão do fugitivo. Iniciam-se representações de rezas, pajelanças e utilização de remédios milagrosos. Os personagens também são envolvidos por danças e músicas, quando enfim ocorre a ressurreição do boi e a festa pelo seu retorno à vida. Dentre as diversas formas em que a festa do boi se apresenta pelo país o grupo Sarandeiros destaca no espetáculo Dança, Brasil! o Bumba-Meu-Boi no Nordeste, especialmente no Maranhão, e o impressionante Boi Bumbá no Amazonas, disputa entre os bois Garantido e Caprichoso  na cidade de Parintins, que realizam uma ópera indígena em plena selva amazônica, em uma das maiores festas do Brasil.

GERAIS DE MINAS – 2005

Falar sobre “mineiridade” não é uma tarefa simples. O que há em especial ou diferente em ser mineiro? Para responder a esta pergunta, muitas vezes pensamos em elementos e experiências que marcaram nossa história pessoal e coletiva, e que nos aponta aos aspectos da memória, da tradição, do enraizamento, de uma ligação ou pertencimento a um certo grupo. A mineiridade é, então, esse processo de identificações a que estamos sujeitos toda vez que tentamos responder à pergunta do que é ser mineiro, do que faz com nos sintamos unidos por laços que não são muito claros, mas fortes o suficiente para que possamos estabelecer relações marcadas por características que nos são próprias, por uma cultura que criamos e somos por ela criados.

Com a urbanização das áreas de mineração, houve também o desenvolvimento de um grande número de obras, dentre residências, edifícios públicos, pontes, chafarizes, pinturas, esculturas, todas marcadas por um estilo próprio, marcando a fase do período barroco em Minas Gerais. A herança dessas construções são as cidades históricas do estado reconhecidas como patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO, espalhadas pelos antigos caminhos da Estrada Real, atualmente totalmente reformulada para o turismo.

Mas a produção cultural do estado não se resume a aspectos materiais e arquitetônicos. A pintura, a literatura, a culinária, além de inúmeras festividades, com músicas e danças, crenças e valores, lendas e mitos, dão a Minas Gerais uma característica muito particular e diversificada, inclusive entre as próprias regiões do estado. Apesar de não haver concordância entre a divisão exata do estado em regiões culturais específicas, muitos estudiosos estabelecem uma divisão que envolve condições climáticas e geográficas, características econômicas, políticas e sociais, além de expressões populares de modo geral. Utilizaremos, como ilustração das áreas culturais do estado, a divisão proposta pelo estudioso Saul Martins, na qual Minas Gerais apresenta 46 micro-regiões e 10 unidades culturais, que seriam:

 Vale do Jequitinhonha – (Cidades pólos – Diamantina, Araçuaí)

Essa área destaca-se pela produção e exportação de pedras preciosas e semipreciosas e pela grande expressão de sua pecuária de corte e foi uma das áreas mais ricas do estado, cujos exploradores chegavam ao local pela Estrada Real. Seu artesanato tem fama nacional e apesar dos poucos e incentivos, é bastante promissor, principalmente em relação ao turismo na região. Destacam-se também na região inúmeros grupos de Congado e manifestações locais, como o Batuque de Araçuaí.

Região Norte (Cidade pólo – Montes Claros)

Nessa região destacam-se diversos setores industriais e dois importantes projetos de irrigação na atividade agrícola: Jaíba e Gorotuba. A presença do rio São Francisco atrai o turismo, juntamente com as belezas naturais da região. Em Montes Claros, ocorrem várias manifestações do Congado Mineiro, com destaque para os Catopés e a Marujada. Em Bocaiaúva, são apresentadas as festas dos Reis de Alto Belo, com danças como a Colheita do pequi, o Calango, o Carneiro, o Batuque, além das Pastorinhas e os violeiros.

Região da Zona da Mata (Cidade pólo – Juiz de Fora)

Situada entre Belo Horizonte e Rio de Janeiro, é uma das regiões mais populosas do Estado e possui de um diversificado parque industrial. Destacam-se entre as principais manifestações os grupos de Folias de Reis e as comemorações juninas em homenagem a São João, São Pedro e Santo Antônio.

Região Central e metalúrgica (Cidades pólos – Belo Horizonte – Curvelo)

A Região Central é montanhosa, tem clima privilegiado e é uma das mais ricas do País em recursos minerais, além de abrigar a capital Belo Horizonte e sua região metropolitana. Destacam-se o comércio, o turismo de negócios, as confecções, biotecnologia, etc. Nessa região destacam-se os festejos juninos, com o Arraial de Belô, diversas guardas de congado e as folias de reis.

Triângulo Mineiro (Cidades pólos – Uberaba – Uberlândia)

Com cidades modernas como Uberlândia, Uberaba, Araguari e Ituiutaba, o Triângulo Mineiro é uma das mais ricas regiões do Estado. A agropecuária dessa região está entre as mais avançadas do mundo em termos de produtividade. Também conhecida como a terra da Catira Mineira, a região é famosa por seus rodeios e também apresenta festas em louvor a Nossa Senhora do Rosário.

Grande Sertão – (Cidade pólo – Unaí)

A região Noroeste de Minas, ou Grande Sertão, possui grande potencial para a produção de grãos, em especial a soja e o milho, destacando-se nos agronegócios. Os grandes rodeios e festas da colheita incentivaram o aparecimento de manifestações locais ligadas às festas de padroeiros, com muita viola. Também estão presentes as Folias de reis e as festividades do Congado.

Campo das Vertentes (Cidades pólos – São João Del Rei – Tiradentes)

 Essa região se destaca bastante pelo turismo, pelo artesanato barroco e de metais como o estanho, além da beleza da região. As principais manifestações são também referentes aos Santos Reis e às modas de violas.

Sul (Cidades pólos – Varginha – Poços de Caldas)

O Sul de Minas se destaca no turismo, com as diversas estâncias hidroclimáticas, bem como a região do Lago de Furnas e o “turismo esotérico”. Também conta com expressiva produção agrícola, sendo a principal região produtora de café do Brasil.   Nesta região, várias Folias de Reis se apresentam no período natalino e algumas guardas de Congado festejam Nossa Senhora do Rosário. Um destaque especial são os Caiapós de Poços de Caldas.

Nordeste (Cidades pólo – Governador Valadares – Nanuque):

Compreende a região localizada entre os vales Mucuri e do Rio Doce. Destaca-se pelo ecoturismo e a prática de esportes radicais. Por ser uma região próxima da Bahia, acabou incorporando elementos culturais desse estado na realização da Micarema, com a presença de foliões em festas carnavalescas fora de época. Também são freqüentes reisados no Natal.

Oeste (Cidades pólos – Bom Despacho, Dores do Indaiá)

O Oeste mineiro tem bastante desenvolvida a pecuária, o que faz com que aconteçam várias atividades ligadas ao gado na região. Apresenta uma das mais belas festas do Rosário do estado, na cidade de Dores do Indaiá, em agosto, com uma grande e diversificada presença de congadeiros, com destaque para as guardas de Congo, Catopés, Caixinhas de Bombacha, Tamboril (tipo de Congo) e Moçambique. Existem também famosas folias de Reis na região em Bom Despacho e o famoso grupo do Catira  Pedro e Pedrinho, de Martinho Campos.

Gerais de Minas foi um marco no trabalho do grupo pois através deste espetáculo o Sarandeiros prestava uma homenagem única às tradições culturais existentes na terra das alterosas, revelendo através da dança e da música, a alma do povo mineiro

 

 Espetáculo Quebranto – 2008:

A quebra dos preconceitos e a visão exuberante dos Orixás

O Espetáculo Quebranto que o Grupo Sarandeiros estreou em 2008 procura quebrar com conceitos e pré-conceitos sobre as divindades africanas e afro-brasileiras cultuadas no Brasil. As lendas e histórias dos grandes Reis Africanos que se tornaram Orixás (Ori = Cabeça (física e astral) + Ixá = guardião) são a base para compreensão das coreografias que compõem o espetáculo. Orixás são elementos energéticos existentes no universo e cada um representa uma força da natureza oriundas da água, da terra, do ar e do fogo, principalmente. Essas forças em equilíbrio produzem uma enorme energia (ashé), que  auxilia no  dia-a-dia das pessoas, ajudando-as para que o destino se torne cada vez mais favorável. Na origem deste culto estão os povos negros que na maioria das nações existentes na África, anteriores à era cristã, conheciam a existência dos Orixás e os relacionavam com as energias de todos os elementos da natureza, sendo que cada elemento é representado por um Orixá. A religião do Candomblé, que tem por base a “anima” (alma) da Natureza, sendo, portanto, chamada de anímica, foi desenvolvida no Brasil com o conhecimento dos sacerdotes africanos que foram escravizados e trazidos da África para o Brasil, juntamente com os seus Orixás/Inquices/ Voduns, a sua cultura, e o seu idioma, entre 1549 e 1888. Embora circunscrito originalmente à população de escravos, proibido pela igreja católica, e criminalizado mesmo por alguns governos, o Candomblé prosperou nos quatro séculos, e expandiu consideravelmente desde o fim oficial da escravatura em 1888. É agora uma das principais religiões estabelecidas no país, com seguidores de todas as classes sociais e dezenas de milhares de templos. Segundo as lendas e histórias relatadas em diversos livros  os Orixás foram os primeiros seres que habitaram a Terra.  Dentre os muitos Orixás que existem abordaremos neste show, 10 ORIXÁS DE PREDOMINÂNCIA, os mais cultuados no Brasil, e 02 ORIXÁS FUNFUNS, IFÁ E OXALÁ, os mais conhecidos e também cultuados. Pela ordem, trataremos dos seguintes orixás de predominância: EXU, NANÂ, OBALUIAIÊ, OXUMARÊ, OXÓSSI, YEMANJÁ, OGUM, OXUM, XANGÔ, YANSÃ*. (PS*: Utilizaremos a nomenclatura nagô por ser a mais utilizada no Brasil.

I Coreografia: O Ifá

 

O destino das pessoas e tudo o que existe pode ser desvendado por meio da consulta a Ifá, o oráculo, que se manifesta e inspira a primeira coreografia realizada pelo grupo. No início de todas as relações que compõem a “conjunção energética” do Candomblé está Ifá, o Orixá da adivinhação. Através dele e do jogo de búzios, podemos averiguar o porquê das situações serem adversas as de sua vontade e se a mesma está em um caminho diferente ao destinado ou escolhido.

 II Coreografia: Exu

II Coreografia : O livre arbítrio

A Primeira dança dos orixás de predominância apresentada no espetáculo Quebranto, foi inspirada nas lendas e movimentos relacionados a Exu, o mensageiro dos orixás, e relata a inter-relação do ser humano com os guardiões da natureza. O intermediário do jogo de Búzios é Exu. Diz uma lenda que apenas Exu tinha o dom da adivinhação. Mas, a pedido de Orunmilá, Deus supremo, Exu transmitiu seus conhecimentos a Ifá e em troca Exu recebeu o privilégio de receber sempre em primeiro lugar as oferendas e sacrifícios antes de qualquer outro orixá. Por isso ele será reverenciado primeiramente no show. Exu representa o princípio do movimento, e tudo é movimento no universo (desde o sangue nas nossas veias até o movimento dos planetas). Exu está nas encruzilhadas de tudo que nos rodeia, fazendo a ligação das partes no todo energético que existe no mundo. Exu também está ligado à sexualidade, aos prazeres humanos, ao livre arbítrio dos prazeres, arquétipos que isnpiraram a coreografia no espetáculo.

III Coreografia: Nanã

NANÃ, a deusa dos mistérios, é uma divindade de origem simultânea à criação do mundo. O seu nome designa pessoas idosas e respeitáveis e significa “mãe”. Na região onde hoje se encontra a República do Benin, Nanã é muitas vezes considerada a divindade suprema e talvez por essa razão seja freqüentemente descrita como um orixá masculino. Nanã teria o mesmo posto hierárquico de Oxalá e é sempre associada à maternidade. É um dos orixás mais velhos da água que, associado às águas do céu e à lama, tem o poder de dar vida e forma aos seres humanos. O seu elemento é a lama do fundo dos rios. Ela é a deusa dos pântanos, da morte (associada à terra, para onde somos levados após a morte) e da transcendência. Os filhos de NANÃ dançam devotando-lhe muito respeito. Os seus movimentos lembram o andar de uma senhora idosa, com passos lentos, o corpo curvado para a frente e apoiado no Ibiri.  Os movimentos são de pessoas extremamente calmas, tão lentas no cumprimento das suas tarefas que chegam a irritar. Agem com benevolência, dignidade e gentileza. Na coreografia, explorara-se a lenda da criação do homem por Nanã, que retira do barro a origem do ser humano.

IV Coreografia: Obaluaiê/ Omulu

Omulú (velho) / Obaluaiyê (novo)

Omulú ou Obaluaiyê, também conhecido como o Orixá das doenças ou da varíola e outras doenças contagiosas, é muito respeitado. Obaluaiê é a forma jovem do Orixá, enquanto Omulú é a sua forma mais velha.  A figura deste orixá é completamente cercada de mistérios e dogmas, sendo-lhe atribuído o controle sobre as doenças, especialmente as epidemias. Filho de Nanã, advém da cultura Jêge assimilado mais tarde pelos Iorubás e nagôs, originário do Daomé, atual República de Benin. Obaluaiê quer dizer “rei e dono da terra”, e a sua veste é de palha onde ele esconde o segredo da vida e da morte. Ele está relacionado com a terra quente e seca, como o calor do fogo e do sol – calor que lembra a febre das doenças infecto-contagiosas. O seu poder está extraordinariamente ligado à morte, mas também à vida pela reencarnação. OBA significa Rei, ILU espíritos e AIYÊ, terra, ou seja, Rei de Todos os Espíritos do Mundo. Ele lidera e detém o poder dos espíritos e dos ancestrais, os quais o seguem. Oculta sob o saiote o mistério da morte e do renascimento (o mistério do gênesis). Ele é a própria terra que recebe os nossos corpos para que se tornem pó, médico dos pobres e o senhor dos cemitérios.   Os filhos deeste orixá podereso cultivam a sua individualidade, são austeros e causam medo aos outros. São introspectivos e quando dançam se mostram de forma amarga e dolorosa, mas de infinita beleza, pois a dança de Obaluiaiê nos traz a redenção dos nossos medos e pecados, através da dor e da penitência.  

V Coreografia: Oxumaré - O Feminino e o Masculino em movimento

Oxumaré é o Orixá de todos os movimentos, de todos os ciclos. Se um dia Oxumaré perder as suas forças o mundo acabará, porque o universo é dinâmico e a Terra também se encontra em constante movimento. Oxumaré não pode ser esquecido, pois o fim dos ciclos é o fim do mundo. Oxumaré mora no céu e vem a Terra visitar-nos através do arco-íris. Ele é uma grande cobra que envolve a Terra e o céu e assegura a unidade e a renovação do universo. Filho de Nanã, Oxumaré é originário de Mahi, no antigo Daomé. Na região de Ifé é chamado de Ajé Sàlugá, aquele que proporciona a riqueza aos homens.   Dizem que Oxumaré seria homem e mulher, mas, na verdade, este é mais um ciclo que ele representa: o ciclo da vida, pois da junção entre masculino e feminino é que a vida se perpetua. Oxumaré é um deus ambíguo, duplo, que pertence à água e à terra, que é macho e fêmea, por isso um homem e uma mulher representam, na coreografia esta ambiguidade. Ele exprime a união dos opostos, que se atraem e proporcionam a manutenção do universo e da vida.

VI Coreografia: Oxóssi - O domínio da cultura sobre a natureza.

Oxóssi é o Deus caçador, senhor da floresta e de todos os seres que nela habitam, Orixá da fartura e da riqueza. Oxóssi é o rei de Ketu, segundo dizem, a origem da dinastia. A Oxóssi são conferidos os títulos de Alakétu, Rei, Senhor de Ketu, e Oníìlé, o dono da Terra, pois na África cabia ao caçador descobrir o local ideal para instalar uma aldeia, tornando-se assim o primeiro ocupante do lugar, com autoridade sobre os futuros habitantes. Na história da humanidade, Oxóssi cumpre um papel civilizador importante, pois na condição de caçador representa as formas mais arcaicas de sobrevivência humana, a própria busca incessante do homem por mecanismos que lhe possibilitem sobressair no espaço da natureza e impor a sua marca no mundo desconhecido. Oxóssi é o orixá da fartura e da alimentação, aquele que aprende a dominar os perigos da mata e vai à busca da caça para alimentar a tribo. A colheita e a caça, representadas nos movimentos da dança, são formas primitivas de busca de alimento e são os domínios de Oxóssi, Orixá que representa aquilo que há de mais antigo na existência humana: a luta pela sobrevivência.

VII Coreografia: Yemanjá  – A mãe de todos nos acolhe em seus braços

No Brasil é talvez o culto mais venerado, e tornando-se quase independente do Candomblé. Rege a maternidade, é a mãe dos peixes, que representam fecundidade. Gosta muito de flores e é o costume oferecer-lhe sete rosas brancas abertas, sem espinhos, que são lançadas ao mar para agradecimento. É a rainha de todas as águas do mundo, sejam as dos rios, ou as do mar. O seu nome deriva da expressão Yéyé Omó Ejá, que significa, mãe cujos filhos são peixes. Na África era cultuada pelos Egbá, nação Iorubá da região de Ifé e Ibadan onde se encontra o rio Yemojá. Apesar de no Brasil Yemanjá ser cultuada nas águas salgadas, a sua origem é num rio que corre para o mar. Inclusive, todas as suas saudações, orikís e cantigas remetem para essa origem, Odó Iyà, por exemplo, significa mãe do rio, já a saudação Erù Iyà faz alusão às espumas formadas no encontro das águas do rio com as águas do mar, sendo esse um dos locais de culto a Yemanjá. Ela é a mãe de todos os filhos, mãe de todo o mundo. Em uma das lendas Yemanjá acabou desfazendo-se nas suas próprias lágrimas transformando-se num rio que correu em direção ao oceano. Não é por acaso que as lágrimas e o mar têm o mesmo sabor.  Na dança realizada, exploraremos o lado mãe de Yemanjá, e também o da razão e da loucura que ela pode, ao mesmo tempo, nos impor através das suas decisões.

VIII Coreografia: Ogum - A Espada! Eis o braço de Ogum.

Ogum é o temível guerreiro, violento e implacável, deus do ferro, da metalurgia e da tecnologia; protetor dos ferreiros, agricultores, carpinteiros, escultores, sapateiros, metalúrgicos, marceneiros, maquinistas, mecânicos, motoristas e de todos os profissionais que de alguma forma lidam com o ferro ou metais afins. Orixá conquistador, Ogum fez-se respeitar em toda a África devido ao seu caráter devastador. Foram muitos os reinos que se curvaram diante do poder militar de Ogum. Foi este orixá podereso quem ensinou aos homens como forjar o ferro e o aço. Ele tem um conjunto de sete instrumentos de ferro: alavanca, machado, pá, enxada, picareta, espada e faca, com as quais ajuda o homem a vencer a natureza. Em todos os cantos da África, Ogum é conhecido, pois soube conquistar cada espaço daquele continente com a sua bravura.

IX Coreografia: Oxum - Eu seduzo a todos, mas amo a mim mesma.

Na Nigéria, mais precisamente em Ijesá, Ijebu e Osogbó, corre calmamente o rio Oxum, a morada da mais bela Iyabá, a rainha de todas as riquezas, a protetora das crianças, a mãe da doçura e da benevolência. Generosa e digna, Oxum é a rainha de todos os rios e cachoeiras. Vaidosa, é a mais importante entre as mulheres da cidade, a Ialodê. É a dona da fecundidade das mulheres, a dona do grande poder feminino. Oxum é a deusa mais bela e mais sensual do Candomblé. É a própria vaidade, dengosa e formosa, paciente e bondosa. O lado espiritual dos filhos de Oxum é também bastante aguçado. Talvez por isso, algumas das maiores Yalorixás da história do Candomblé, tenham sido ou sejam de Oxum.

X Coreografia: Xangô - Sou a força e o poder, sou rei.

Rei absoluto, forte, imbatível: um déspota, o prazer de Xangô é o poder. Xangô manda nos poderosos, manda no seu reino e nos reinos vizinhos. Xangô é rei entre todos os reis. Percebe-se que a imagem de poder está sempre associada a Xangô. O poder real, por exemplo, é-lhe delegado por ter-se tornado o quarto alafim de Òyó, que era considerada a capital política dos Iorubas, a cidade mais importante da Nigéria. Xangô foi o grande Rei  de Òyó porque soube inspirar credibilidade aos seus súditos, tomou as decisões mais acertadas e sábias e, sobretudo, demonstrou a sua capacidade para o comando, persuadindo todos, especialmente com o seu sentido de justiça muito apurado. Xangô expressa a autoridade dos grandes governantes, mas também detém o poder mágico, já que domina o mais perigoso de todos os elementos da natureza: o fogo. O poder mágico de Xangô reside no raio, no fogo que corta o céu, que destrói a Terra, mas que transforma, protege e ilumina o caminho. Xangô era um amante irresistível e por isso foi disputado por três mulheres, soberanas em seus reinos e posteriormente orixás, Iansã, Obá e Oxum.  Para a humanidade, Xangô decide sobre a vida de todos, mas sobre a sua vida (e sua morte) só ele tem o direito de decidir. Ele é mais poderoso que a morte, razão pela qual passou a ser o seu anti-símbolo

XI Coreografia: Yansã  – Sou rainha, senhora dos ventos e dos espíritos.

Yansã é um orixá feminino muito famoso, sendo uma das mais populares figuras entre os mitos do Candomblé no Brasil, em Portugal e na África, onde é predominantemente cultuada sob o nome de Oyá. A tempestade é o poder manifesto de Yansã, rainha dos raios e das ventanias. Yansã é a mulher que acorda de manhã, beija os filhos e sai em busca do sustento.  O fato de estar relacionada a funções tipicamente masculinas não afasta Iansã das características próprias de uma mulher sensual, fogosa e ardente; ela é extremamente feminina e o seu número de paixões mostra a forte atração que sente pelo sexo oposto. Yansã teve muitos homens e verdadeiramente amou todos. Ela é arrebatadora, sensual e provocante, mas quando ama um homem só se interessa por ele, portanto é extremamente fiel e possessiva. Todavia, a fidelidade de Yansã não está necessariamente relacionada a um homem, mas às suas convicções e aos seus sentimentos. Este sentimento de força, explosão e fogo está presente na coreografia de Yansã.

XII Coreografia: Oxalá - Sou o Pai de toda a criação

Oxalá é o detentor do poder procriador masculino. Todas as suas representações incluem o branco. É um elemento fundamental dos primórdios, massa de ar e massa de água, a pró-forma e a formação de todo tipo de criaturas no Aiye e no Orun. Ao incorporar-se, assume duas formas: Oxaguiã jovem guerreiro, e Oxalufã, velho apoiado num bastão de prata (Opaxorô), arquétipo apresentado no show, como Deus supremo e criador. Oxalá vem cercado por duas guias de santo, que ajudam os orixás, normalmente de olhos fechados, a se moverem pela terra, através do barulho dos sinos. A dança irá passar pelo conhecimento da força da criação existente em Oxalá e a relação espiritual da vida após a morte, a chegada ao Céu de Orum, a morada dos bem aventurados.

XIII Coreografia: XIRÊ – A festa final dos Orixás e a criação da relação entre os humanos e as divindades

A palavra Xirê significa brincar, dançar; denota o tom alegre da festa de Candomblé, onde os próprios Orixás vêm à terra para dançar com os seus filhos. Os atabaques começam a “falar” com os deuses. Os Orixás são invocados com cantigas próprias e os filhos-de-santo “entram-na-roda”, um a um, na chamada ordem do Xirê: primeiro, os filhos de Exu e em seguida os orixás apresentados no show. No Xirê (festa em homenagem aos Orixás), Oxalá é homenageado por último porque é o grande símbolo da síntese de todas as origens. Ele representa a totalidade. Ele é o único Orixá que, como Exú, reside em todos os seres humanos. Todos são seus filhos, todos são irmãos. A coreografia final, encenada em “Quebranto” representa o encontro entre os Deuses e os humanos, traz o caráter festivo que impregna as cerimônias públicas. Nelas, têm-se a percepção de que o contato entre o mundo dos deuses e dos homens é um momento singular. Todos os filhos dançam saudando os seus deuses. E o Quebranto que propusemos, a quebra dos preconceitos sobre a cultura fascinante dos orixás, tem o seu fim.